O Babadook não entrou nem saiu : esteve sempre lá até se revelar. É a matéria negra que o inconsciente somou de um luto engolido, e se materializa no fantasma de traço infantil que assombra uma ligação entre a mãe e o filho e a sua casa. O filme repara como coincide com a própria história de cinema uma narrativa de transfiguração humana num movimento de devir-monstro que explicita a íntima vocação psicanalítica do medium : revelar o monstro é revelar o eu.
I have never seen a greater monster or miracle in the world than myself.
Michel de Montaigne
The Babadook (O Senhor Babadook, 2014) de Jennifer Kent
Confirmam-se as melhores previsões que fiz na antevisão do festival, com base apenas no muito impactante trailer. A surpresa é que o papão se chama maternidade. O tema forte é o horror da mãe e o horror à mãe, como se num The Shining (1980) a perspectiva da acção pertencesse por inteiro a Shelley Duvall e a loucura alucinante se gerasse a partir dela e não do pai, interpretado por Jack Nicholson. Neste caso, temos a história de Amelia (interpretação pujante de Essie Davis) e do seu filho Robbie. O pai será o grande presente ausente nesta história. O seu desaparecimento físico num acidente de carro é o grande trauma que converterá a narrativa de assombração, que o livro protagonizado pelo Senhor Babadook prescreve (isto é, pré-escreve), numa via crucis interior de sacrifício e superação. Superação de quê? Precisamente da imagem do pai, que, fina como papel, será rasgada na sequência dos horrores e fantasmagorias, que percorrem a casa tanto quanto vão “trespassando” os limites da mente. O livro pop-up é, então, uma espécie de objecto fetiche no filme e, mais decisivamente, do filme. A tridimensionalidade do susto em papel e a inocência da história que, de página em página, vai sendo também ela rasgada são elementos que Jennifer Kent transfere habilmente para o próprio “texto do filme” – falo aqui menos de argumento que de mise en scène.
Apetece dizer que não só o filme traduz a simbologia – e estética! – do livro, como, na realidade, o cita muito directamente na acção, como se a disputa pela casa fosse também a disputa pelas fronteiras da mente, da mãe e do filho. O grito final de Amelia, largado no ponto culminante de toda esta aventura tenebrosa sobre a depressão na maternidade, é dirigido directamente no espaço ao monstro espectral de chapéu alto de coveiro, de dedos compridos que lembram Nosferatu e Freddy Krugger, e com um corpo informe e rastejante reminiscente da terrífica mãe em Ju-on (2002). Dizia, esse grito é dirigido no espaço a Babadook, mas no tempo o destinatário é – continua a ser, nesta leitura sempre posta em profundidade – o marido desaparecido. Há como que um “pôr in situ” dos recalcamentos e traumas que assolam uma (como uma qualquer?) mãe solitária. Nessa solidão, The Babadook encontra o ponto alto da sua criatividade, os tais instantes que sobressaem aos nossos olhos como as figuras de papel no livro pop-up. Um deles é o da montagem alucinatória de imagens de filmes mudos assistidos por Amelia na TV, senão de facto, pelo menos na sua cabeça. Um desses filmes é a curta de Georges Méliès Le livre magique (1900), onde, página sobre página, as figuras do livro no filme saltam para a realidade do filme e vice-versa. Noutro instante, a mãe projecta a sua angústia – o seu horror de ser mãe – numa história de polícias que passa no noticiário. A televisão é o reflexo catalisador dessa sensação que, num crescendo, vai tomando conta de The Babadook: a de que o chão nos foge dos pés à mesma velocidade com que a realidade se evade da nossa cabeça para dar lugar a um papão que não queremos “deixar entrar”. O filme, esse, entra em nós como poucos.