segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

homens ''idos''

"Em que censo das criaturas vivas se acha incluída a humanidade morta?
(...)
Em que eterna e imóvel cristalização, em que desespero e mortífero transe jaz o velho Adão, morto há cerca de sessenta séculos."

MOBY DICK, Melville

domingo, 1 de fevereiro de 2015



The Walking Dead (2010)




Dos mais longínquos folclores e geografias nos chegam variações dessa fascinante figura que é o zombie, da qual não nos cansamos talvez por definir tão crua e veridicamente o embate humano com a finitude. Sendo popular na literatura e no cinema de terror, foi inesperado o fenómeno de ter sido catapultada para o horário nobre familiar americano através da série pós-apocalíptica The Walking Dead, no ar desde 2010 a subverter o equívoco comum de que o terror é um género subalterno da ficção. 
O zombie é uma figura de interstício, em terreno entre a vida e a morte. É um cadáver animado por uma indefinível chama diabólica nas suas necessidades de subsistência - está morto mas existe e precisa de comer, em suma, mantém-se mas segundo leis que o resto da natureza não segue. O zombie é a degeneração da criação, suga a vida da carne dos vivos e prossegue segundo princípios destrutivos em direcção ao caos e à demência - um atentado contra a vida e a organização da sociedade humana. É carne em ponto de decomposição, mas na sua forma humana, o que chamar a estes monstros semelhantes, que foram humanos e deixaram de o ser? 
É uma questão que recorre entre as personagens que se cruzam na série : The Walkers, The Dead, The Unliving são os novos nomes para os zombies, que se multiplicam e não morrem naturalmente. Têm de ser mortos pelos homens - a sobrevivência destes implica a defesa activa e a eliminação dos zombies.
Espalhado sobre a terra o apocalipse zombie, inúmeras questões atravessam o dia-a-dia dos humanos que resistem nos limites da sobrevivência, e as 5 seasons detalham a fundo os vários desafios morais que implicam a organização, defesa e subsistência, e que ''tribalizam'' as pequenas comunidades que se agregam em torno de abrigo e entre-protecção em ''famílias humanas'' tornadas hostis aos grupos com quem disputam recursos e soberania. Em anarquia e sem poderes centrais, assiste-se à rápida degeneração das leis humanas, à ascensão da violência e de sistemas de tirania e de repressão (o acampamento de The Governor é uma versão de Jonestown e o Hospital-prisão da Tenente Dawn é um campo de trabalhos forçados de contornos estalinistas) e indagamos sobre que pilares da legalidade moral devem permanecer intactos para que a existência humana permaneça humana, e digna de ser vivida - e não reduzida a mais uma sucessão animal do instinto pela sobrevivência.
Por isso, talvez o mais interessante desta última temporada seja a reflexão acerca do papel da arte neste cenário-limite : defronte de um Caravaggio resgatado do lixo, fala-se da condição humana como uma superação do espírito, lembrando como a abstracção ao corpo é o que distingue a espécie humana dos seres restantes. É, conclui-se, indispensável a pacificação num ponto seguro de espaço-tempo em que o corpo se sinta integro e não contraído na apreensão animal de um permanente estado de alerta, para que o homem se cumpra como homem. A paz é indispensável à natureza humana. 

''Art is not about survival, it’s about transcendence” 
Dr. Edwards 

Masters of Sex (2013)


Não é do meu hábito ver séries. Por isso, reservo-me somente os dias de férias para me embrenhar nesse território estrangeiro e entrar e sair de enfiada de um qualquer hit-show de que todos falam e eu não faço a mais pálida ideia. (Sim sim, um verdadeiro episódio de peer pressure.) Entre as inúmeras possibilidades, lancei a curiosidade para Masters of Sex, que reencena os dramas das investigações pioneiras de Dr. Masters e da Dra. Johnson no campo da fisiologia da sexualidade, numa conservadora América dos anos 50/60. Num ponto histórico das lutas pela igualdade sexual e racial, passamos ao lado de tabus e preconceitos e do fastio das donas de casa curiosas mas com aspirações formatadas e questões como a homossexualidade como diagnóstico médico, a assexualidade e a satisfação emocional sem desenlace sexual, a falência do casamento como sistema de expectativas ou o nascimento com identidade sexual ambígua lembram-nos dos próprios limites do discurso sobre a sexualidade ainda hoje - e de como a hipersexualização da sociedade tende a ser normativa.
E, pelo caminho, há ali aquele delicioso personagem do cinéfilo inábil, que à procura de conseguir um "cinema próximo da vida", filma e arquiva todo o processo enquanto reinventa a parafernália médica à medida das necessidades da visibilidade e, nas horas vagas, revisita filmes do Antonioni e as teorias da ''imagem fotográfica'' de Bazin, para reflectir acerca dos limites entre pornografia e abstracção, documentário e documento. Achei a série extremamente bem escrita mas sobre-referencial (por duas vezes vi reencenada a famosa cena do jantar de família burguesa americana em decalque Beleza Americana - já de si um decalque clássico) e, no meio do desinteresse fotográfico geral, ao longo desses 24 episódios ensopados de drama relacional, o meu tédio levou a melhor. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

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the monster inside


O Babadook não entrou nem saiu : esteve sempre lá até se revelar. É a matéria negra que o inconsciente somou de um luto engolido, e se materializa no fantasma de traço infantil que assombra uma ligação entre a mãe e o filho e a sua casa. O filme repara como coincide com a própria história de cinema uma narrativa de transfiguração humana num movimento de devir-monstro que explicita a íntima vocação psicanalítica do medium : revelar o monstro é revelar o eu.  
I have never seen a greater monster or miracle in the world than myself.

Michel de Montaigne


The Babadook (O Senhor Babadook, 2014) de Jennifer Kent
Confirmam-se as melhores previsões que fiz na antevisão do festival, com base apenas no muito impactante trailer. A surpresa é que o papão se chama maternidade. O tema forte é o horror da mãe e o horror à mãe, como se num The Shining (1980) a perspectiva da acção pertencesse por inteiro a Shelley Duvall e a loucura alucinante se gerasse a partir dela e não do pai, interpretado por Jack Nicholson. Neste caso, temos a história de Amelia (interpretação pujante de Essie Davis) e do seu filho Robbie. O pai será o grande presente ausente nesta história. O seu desaparecimento físico num acidente de carro é o grande trauma que converterá a narrativa de assombração, que o livro protagonizado pelo Senhor Babadook prescreve (isto é, pré-escreve), numa via crucis interior de sacrifício e superação. Superação de quê? Precisamente da imagem do pai, que, fina como papel, será rasgada na sequência dos horrores e fantasmagorias, que percorrem a casa tanto quanto vão “trespassando” os limites da mente. O livro pop-up é, então,  uma espécie de objecto fetiche no filme e, mais decisivamente, do filme. A tridimensionalidade do susto em papel e a inocência da história que, de página em página, vai sendo também ela rasgada são elementos que Jennifer Kent transfere habilmente para o próprio “texto do filme” – falo aqui menos de argumento que de mise en scène.
Apetece dizer que não só o filme traduz a simbologia – e estética! – do livro, como, na realidade, o cita muito directamente na acção, como se a disputa pela casa fosse também a disputa pelas fronteiras da mente, da mãe e do filho. O grito final de Amelia, largado no ponto culminante de toda esta aventura tenebrosa sobre a depressão na maternidade, é dirigido directamente no espaço ao monstro espectral de chapéu alto de coveiro, de dedos compridos que lembram Nosferatu e Freddy Krugger, e com um corpo informe e rastejante reminiscente da terrífica mãe em Ju-on (2002). Dizia, esse grito é dirigido no espaço a Babadook, mas no tempo o destinatário é – continua a ser, nesta leitura sempre posta em profundidade – o marido desaparecido. Há como que um “pôr in situ” dos recalcamentos e traumas que assolam uma (como uma qualquer?) mãe solitária. Nessa solidão, The Babadook encontra o ponto alto da sua criatividade, os tais instantes que sobressaem aos nossos olhos como as figuras de papel no livro pop-up. Um deles é o da montagem alucinatória de imagens de filmes mudos assistidos por Amelia na TV, senão de facto, pelo menos na sua cabeça. Um desses filmes é a curta de Georges Méliès Le livre magique (1900), onde, página sobre página, as figuras do livro no filme saltam para a realidade do filme e vice-versa. Noutro instante, a mãe projecta a sua angústia – o seu horror de ser mãe – numa história de polícias que passa no noticiário. A televisão é o reflexo catalisador dessa sensação que, num crescendo, vai tomando conta de The Babadook: a de que o chão nos foge dos pés à mesma velocidade com que a realidade se evade da nossa cabeça para dar lugar a um papão que não queremos “deixar entrar”. O filme, esse, entra em nós como poucos.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O cine-transe de Jean-Rouch

Tese de Jose Geraldo Freire Coelho (Univ. Brasília,  2009) :
CINE-TRANSE : EXPERIÊNCIA E NARRAÇÃO NO FILME JAGUAR DE JEAN ROUCH 
http://repositorio.unb.br/handle/10482/4477

ON THE VICISSITUDES OF THE SELF : THE POSSESSED, THE DANCER, THE MAGICIAN, THE SORCERER, THE FILM-MAKER AND THE ETHNOGRAPHER
 (Jean Rouch)
https://pt.scribd.com/doc/237321629/On-the-vicissitudes-of-the-self-the-possessed-dancer-the-magician-the-sorcerer-the-filmaker-and-the-ethnographer#download
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