domingo, 1 de fevereiro de 2015



The Walking Dead (2010)




Dos mais longínquos folclores e geografias nos chegam variações dessa fascinante figura que é o zombie, da qual não nos cansamos talvez por definir tão crua e veridicamente o embate humano com a finitude. Sendo popular na literatura e no cinema de terror, foi inesperado o fenómeno de ter sido catapultada para o horário nobre familiar americano através da série pós-apocalíptica The Walking Dead, no ar desde 2010 a subverter o equívoco comum de que o terror é um género subalterno da ficção. 
O zombie é uma figura de interstício, em terreno entre a vida e a morte. É um cadáver animado por uma indefinível chama diabólica nas suas necessidades de subsistência - está morto mas existe e precisa de comer, em suma, mantém-se mas segundo leis que o resto da natureza não segue. O zombie é a degeneração da criação, suga a vida da carne dos vivos e prossegue segundo princípios destrutivos em direcção ao caos e à demência - um atentado contra a vida e a organização da sociedade humana. É carne em ponto de decomposição, mas na sua forma humana, o que chamar a estes monstros semelhantes, que foram humanos e deixaram de o ser? 
É uma questão que recorre entre as personagens que se cruzam na série : The Walkers, The Dead, The Unliving são os novos nomes para os zombies, que se multiplicam e não morrem naturalmente. Têm de ser mortos pelos homens - a sobrevivência destes implica a defesa activa e a eliminação dos zombies.
Espalhado sobre a terra o apocalipse zombie, inúmeras questões atravessam o dia-a-dia dos humanos que resistem nos limites da sobrevivência, e as 5 seasons detalham a fundo os vários desafios morais que implicam a organização, defesa e subsistência, e que ''tribalizam'' as pequenas comunidades que se agregam em torno de abrigo e entre-protecção em ''famílias humanas'' tornadas hostis aos grupos com quem disputam recursos e soberania. Em anarquia e sem poderes centrais, assiste-se à rápida degeneração das leis humanas, à ascensão da violência e de sistemas de tirania e de repressão (o acampamento de The Governor é uma versão de Jonestown e o Hospital-prisão da Tenente Dawn é um campo de trabalhos forçados de contornos estalinistas) e indagamos sobre que pilares da legalidade moral devem permanecer intactos para que a existência humana permaneça humana, e digna de ser vivida - e não reduzida a mais uma sucessão animal do instinto pela sobrevivência.
Por isso, talvez o mais interessante desta última temporada seja a reflexão acerca do papel da arte neste cenário-limite : defronte de um Caravaggio resgatado do lixo, fala-se da condição humana como uma superação do espírito, lembrando como a abstracção ao corpo é o que distingue a espécie humana dos seres restantes. É, conclui-se, indispensável a pacificação num ponto seguro de espaço-tempo em que o corpo se sinta integro e não contraído na apreensão animal de um permanente estado de alerta, para que o homem se cumpra como homem. A paz é indispensável à natureza humana. 

''Art is not about survival, it’s about transcendence” 
Dr. Edwards 

0 comentários:

Enviar um comentário

Com tecnologia do Blogger.