quinta-feira, 25 de junho de 2015

O maior carpenterianismo de IT FOLLOWS não está nem na música carregada nem no ambiente circunscrito dos subúrbios, mas nessa transfiguração do corpo humano, que é tanto é contaminado como se cura do seu mal por via dos outros humanos (evocação da vivência em sociedade). Depois, o constante chamamento da confiança literalmente cega que advém da tensão entre o visível e o invisível: ainda que os amigos não vejam os monstros pessoais uns dos outros, ainda assim combatem-nos por adivinhação. Enfrentam o vazio, disparam no ar à procura de atingir o mal e de ajudar a eliminá-lo. Uma bela reflexão acerca da natureza essencial dos laços.
(SDM)

 
IT FOLLOWS, David Robert Mitchell, 2015

''Diante deste It Follows não há como não referir três pontos que me parecem fundamentais para melhor absorver aquilo que é a segunda incursão de Mitchell na longa metragem [é dele The Myth of the American Sleepover (2010)]. A saber: (1) como trabalhar a homenagem do cinema de género, absorvê-la sem a esconder nem rejeitar, mas também sem nunca cair no à moda de nem na referência inútil e vazia; (2) como inverter os valores morais (e moralistas) dos típicos slashers dos anos 70 e 80 numa actualização simbólica da valoração do sexo como mecanismo de progressão social e crescimento individual; (3)  como traduzir pela câmara o que não se vê num constante exercício de olhares (o nosso e o das personagens) e foras-de-campo. Estes três aspectos, em particular o segundo, são aquilo que faz de It Follows um objecto singular.
Demoremos-nos então um pouco mais em cada um deles. Não gosto de fazer fórmulas e olhar para os filmes como combinações de outros, mas poderíamos dizer que esta obra de Robert Mitchell é o resultado da soma aritmética entre The Thing (Veio do outro mundo, 1982) e Halloween (As Noites de Halloween, 1978), porque, por um lado, o universo do subúrbio americano está presente de forma vistosa (as mesmas casas de tijolo, as mesmas relvas verdes, os mesmos passeios calmos) e a Mitchell interessa esse lado referencial; por outro, a assombração que invade a vida destes jovens tem o poder de constantemente mudar de forma, assumindo por vezes a identidade de alguns dos amigos da protagonista. E aqui se compreende a questão da homenagem e o amor que o realizador deve ter ao cinema de Carpenter (note-se apenas a banda sonora, caso restem dúvidas). O que interessa, no entanto, passa por nos apercebermos que, ao contrário de uma mensagem puritana de muitos dos filmes de teen horror, aqui as personagens não são condenadas pelo sexo, aliás, é pelo sexo que possivelmente se salvam da criatura (ela deixa de te seguir se a “passares” a outro e não ao mesmo…) numa parábola sobre as DST – o que revela ainda mais uma certa sensação de filme fora do seu tempo (ou então talvez não). Mas talvez seja a câmara, num constante jogo entre o que se mostra e o que fica por mostrar, que mais nos agarra. É que a assombração só é visível por aqueles que estão infectados e nós, espectadores sãos, ficamos muitas vezes de fora, a olhar o nada e temendo-o ainda mais.''

Ricardo Vieira Lisboa
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