sábado, 27 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O maior carpenterianismo de IT FOLLOWS não está nem na música carregada nem no ambiente circunscrito dos subúrbios, mas nessa transfiguração do corpo humano, que é tanto é contaminado como se cura do seu mal por via dos outros humanos (evocação da vivência em sociedade). Depois, o constante chamamento da confiança literalmente cega que advém da tensão entre o visível e o invisível: ainda que os amigos não vejam os monstros pessoais uns dos outros, ainda assim combatem-nos por adivinhação. Enfrentam o vazio, disparam no ar à procura de atingir o mal e de ajudar a eliminá-lo. Uma bela reflexão acerca da natureza essencial dos laços.
(SDM)

 
IT FOLLOWS, David Robert Mitchell, 2015

''Diante deste It Follows não há como não referir três pontos que me parecem fundamentais para melhor absorver aquilo que é a segunda incursão de Mitchell na longa metragem [é dele The Myth of the American Sleepover (2010)]. A saber: (1) como trabalhar a homenagem do cinema de género, absorvê-la sem a esconder nem rejeitar, mas também sem nunca cair no à moda de nem na referência inútil e vazia; (2) como inverter os valores morais (e moralistas) dos típicos slashers dos anos 70 e 80 numa actualização simbólica da valoração do sexo como mecanismo de progressão social e crescimento individual; (3)  como traduzir pela câmara o que não se vê num constante exercício de olhares (o nosso e o das personagens) e foras-de-campo. Estes três aspectos, em particular o segundo, são aquilo que faz de It Follows um objecto singular.
Demoremos-nos então um pouco mais em cada um deles. Não gosto de fazer fórmulas e olhar para os filmes como combinações de outros, mas poderíamos dizer que esta obra de Robert Mitchell é o resultado da soma aritmética entre The Thing (Veio do outro mundo, 1982) e Halloween (As Noites de Halloween, 1978), porque, por um lado, o universo do subúrbio americano está presente de forma vistosa (as mesmas casas de tijolo, as mesmas relvas verdes, os mesmos passeios calmos) e a Mitchell interessa esse lado referencial; por outro, a assombração que invade a vida destes jovens tem o poder de constantemente mudar de forma, assumindo por vezes a identidade de alguns dos amigos da protagonista. E aqui se compreende a questão da homenagem e o amor que o realizador deve ter ao cinema de Carpenter (note-se apenas a banda sonora, caso restem dúvidas). O que interessa, no entanto, passa por nos apercebermos que, ao contrário de uma mensagem puritana de muitos dos filmes de teen horror, aqui as personagens não são condenadas pelo sexo, aliás, é pelo sexo que possivelmente se salvam da criatura (ela deixa de te seguir se a “passares” a outro e não ao mesmo…) numa parábola sobre as DST – o que revela ainda mais uma certa sensação de filme fora do seu tempo (ou então talvez não). Mas talvez seja a câmara, num constante jogo entre o que se mostra e o que fica por mostrar, que mais nos agarra. É que a assombração só é visível por aqueles que estão infectados e nós, espectadores sãos, ficamos muitas vezes de fora, a olhar o nada e temendo-o ainda mais.''

Ricardo Vieira Lisboa

segunda-feira, 30 de março de 2015

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Jess Franco, amante.

Serge Daney distinguishes between love of cinema and passion for cinema. The latter state concerns the expressive evolution and refinement of the art, typified by the work, one might suppose, of such singular giants as Godard, Dreyer and Garrel. Love of cinema, on the other hand, is fetishistic, stemming from contentment with the medium as it already is. In the acceptance speech [Jess] Franco made on receiving his honorary lifetime achievement Goya award this February [2009], he described himself as simply ‘a man in love with cinema'. Perhaps nowhere better than in Jess Franco's oeuvre is ‘love of cinema' embodied. Yet complacency is hardly the first quality one associates with Franco's often defiantly free, personal and gloriously extreme riffs on familiar B cinema patterns. The fevered mirror he holds up to cinema reveals not a static museum of ossified formulas but a rich arsenal of figurative possibilities. Jess Franco is cinema- cinema in all its crassness, vulgarity, brutality, puerility, vitality, invention, wonder, joy, eroticism, poetry, violence, bizarreness, obsessiveness, mystery. And, of course, addictiveness. 

[Maximilian Le Cain, Editorial, Experimental Conversations, Spring 2009]

domingo, 1 de março de 2015

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She-devils



Mother Joan of the Angels, Jerzy Kawalerowicz, 1961

“Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem-nos.”
Stephen King

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

homens ''idos''

"Em que censo das criaturas vivas se acha incluída a humanidade morta?
(...)
Em que eterna e imóvel cristalização, em que desespero e mortífero transe jaz o velho Adão, morto há cerca de sessenta séculos."

MOBY DICK, Melville

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Postal de férias #2 : The Walking Dead



The Walking Dead (2010)




Dos mais longínquos folclores e geografias nos chegam variações dessa fascinante figura que é o zombie, da qual não nos cansamos talvez por definir tão crua e veridicamente o embate humano com a finitude. Sendo popular na literatura e no cinema de terror, foi inesperado o fenómeno de ter sido catapultada para o horário nobre familiar americano através da série pós-apocalíptica The Walking Dead, no ar desde 2010 a subverter o equívoco comum de que o terror é um género subalterno da ficção. 
O zombie é uma figura de interstício, em terreno entre a vida e a morte. É um cadáver animado por uma indefinível chama diabólica nas suas necessidades de subsistência - está morto mas existe e precisa de comer, em suma, mantém-se mas segundo leis que o resto da natureza não segue. O zombie é a degeneração da criação, suga a vida da carne dos vivos e prossegue segundo princípios destrutivos em direcção ao caos e à demência - um atentado contra a vida e a organização da sociedade humana. É carne em ponto de decomposição, mas na sua forma humana, o que chamar a estes monstros semelhantes, que foram humanos e deixaram de o ser? 
É uma questão que recorre entre as personagens que se cruzam na série : The Walkers, The Dead, The Unliving são os novos nomes para os zombies, que se multiplicam e não morrem naturalmente. Têm de ser mortos pelos homens - a sobrevivência destes implica a defesa activa e a eliminação dos zombies.
Espalhado sobre a terra o apocalipse zombie, inúmeras questões atravessam o dia-a-dia dos humanos que resistem nos limites da sobrevivência, e as 5 seasons detalham a fundo os vários desafios morais que implicam a organização, defesa e subsistência, e que ''tribalizam'' as pequenas comunidades que se agregam em torno de abrigo e entre-protecção em ''famílias humanas'' tornadas hostis aos grupos com quem disputam recursos e soberania. Em anarquia e sem poderes centrais, assiste-se à rápida degeneração das leis humanas, à ascensão da violência e de sistemas de tirania e de repressão (o acampamento de The Governor é uma versão de Jonestown e o Hospital-prisão da Tenente Dawn é um campo de trabalhos forçados de contornos estalinistas) e indagamos sobre que pilares da legalidade moral devem permanecer intactos para que a existência humana permaneça humana, e digna de ser vivida - e não reduzida a mais uma sucessão animal do instinto pela sobrevivência.
Por isso, talvez o mais interessante desta última temporada seja a reflexão acerca do papel da arte neste cenário-limite : defronte de um Caravaggio resgatado do lixo, fala-se da condição humana como uma superação do espírito, lembrando como a abstracção ao corpo é o que distingue a espécie humana dos seres restantes. É, conclui-se, indispensável a pacificação num ponto seguro de espaço-tempo em que o corpo se sinta integro e não contraído na apreensão animal de um permanente estado de alerta, para que o homem se cumpra como homem. A paz é indispensável à natureza humana. 

''Art is not about survival, it’s about transcendence” 
Dr. Edwards 

Postal de férias #1 : Masters of Sex


Masters of Sex (2013)


Não é do meu hábito ver séries. Por isso, reservo-me somente os dias de férias para me embrenhar nesse território estrangeiro e entrar e sair de enfiada de um qualquer hit-show de que todos falam e eu não faço a mais pálida ideia. (Sim sim, um verdadeiro episódio de peer pressure.) Entre as inúmeras possibilidades, lancei a curiosidade para Masters of Sex, que reencena os dramas das investigações pioneiras de Dr. Masters e da Dra. Johnson no campo da fisiologia da sexualidade, numa conservadora América dos anos 50/60. Num ponto histórico das lutas pela igualdade sexual e racial, passamos ao lado de tabus e preconceitos e do fastio das donas de casa curiosas mas com aspirações formatadas e questões como a homossexualidade como diagnóstico médico, a assexualidade e a satisfação emocional sem desenlace sexual, a falência do casamento como sistema de expectativas ou o nascimento com identidade sexual ambígua lembram-nos dos próprios limites do discurso sobre a sexualidade ainda hoje - e de como a hipersexualização da sociedade tende a ser normativa.
E, pelo caminho, há ali aquele delicioso personagem do cinéfilo inábil, que à procura de conseguir um "cinema próximo da vida", filma e arquiva todo o processo enquanto reinventa a parafernália médica à medida das necessidades da visibilidade e, nas horas vagas, revisita filmes do Antonioni e as teorias da ''imagem fotográfica'' de Bazin, para reflectir acerca dos limites entre pornografia e abstracção, documentário e documento. Achei a série extremamente bem escrita mas sobre-referencial (por duas vezes vi reencenada a famosa cena do jantar de família burguesa americana em decalque Beleza Americana - já de si um decalque clássico) e, no meio do desinteresse fotográfico geral, ao longo desses 24 episódios ensopados de drama relacional, o meu tédio levou a melhor. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

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the monster inside


O Babadook não entrou nem saiu : esteve sempre lá até se revelar. É a matéria negra que o inconsciente somou de um luto engolido, e se materializa no fantasma de traço infantil que assombra uma ligação entre a mãe e o filho e a sua casa. O filme repara como coincide com a própria história de cinema uma narrativa de transfiguração humana num movimento de devir-monstro que explicita a íntima vocação psicanalítica do medium : revelar o monstro é revelar o eu.  
I have never seen a greater monster or miracle in the world than myself.

Michel de Montaigne


The Babadook (O Senhor Babadook, 2014) de Jennifer Kent
Confirmam-se as melhores previsões que fiz na antevisão do festival, com base apenas no muito impactante trailer. A surpresa é que o papão se chama maternidade. O tema forte é o horror da mãe e o horror à mãe, como se num The Shining (1980) a perspectiva da acção pertencesse por inteiro a Shelley Duvall e a loucura alucinante se gerasse a partir dela e não do pai, interpretado por Jack Nicholson. Neste caso, temos a história de Amelia (interpretação pujante de Essie Davis) e do seu filho Robbie. O pai será o grande presente ausente nesta história. O seu desaparecimento físico num acidente de carro é o grande trauma que converterá a narrativa de assombração, que o livro protagonizado pelo Senhor Babadook prescreve (isto é, pré-escreve), numa via crucis interior de sacrifício e superação. Superação de quê? Precisamente da imagem do pai, que, fina como papel, será rasgada na sequência dos horrores e fantasmagorias, que percorrem a casa tanto quanto vão “trespassando” os limites da mente. O livro pop-up é, então,  uma espécie de objecto fetiche no filme e, mais decisivamente, do filme. A tridimensionalidade do susto em papel e a inocência da história que, de página em página, vai sendo também ela rasgada são elementos que Jennifer Kent transfere habilmente para o próprio “texto do filme” – falo aqui menos de argumento que de mise en scène.
Apetece dizer que não só o filme traduz a simbologia – e estética! – do livro, como, na realidade, o cita muito directamente na acção, como se a disputa pela casa fosse também a disputa pelas fronteiras da mente, da mãe e do filho. O grito final de Amelia, largado no ponto culminante de toda esta aventura tenebrosa sobre a depressão na maternidade, é dirigido directamente no espaço ao monstro espectral de chapéu alto de coveiro, de dedos compridos que lembram Nosferatu e Freddy Krugger, e com um corpo informe e rastejante reminiscente da terrífica mãe em Ju-on (2002). Dizia, esse grito é dirigido no espaço a Babadook, mas no tempo o destinatário é – continua a ser, nesta leitura sempre posta em profundidade – o marido desaparecido. Há como que um “pôr in situ” dos recalcamentos e traumas que assolam uma (como uma qualquer?) mãe solitária. Nessa solidão, The Babadook encontra o ponto alto da sua criatividade, os tais instantes que sobressaem aos nossos olhos como as figuras de papel no livro pop-up. Um deles é o da montagem alucinatória de imagens de filmes mudos assistidos por Amelia na TV, senão de facto, pelo menos na sua cabeça. Um desses filmes é a curta de Georges Méliès Le livre magique (1900), onde, página sobre página, as figuras do livro no filme saltam para a realidade do filme e vice-versa. Noutro instante, a mãe projecta a sua angústia – o seu horror de ser mãe – numa história de polícias que passa no noticiário. A televisão é o reflexo catalisador dessa sensação que, num crescendo, vai tomando conta de The Babadook: a de que o chão nos foge dos pés à mesma velocidade com que a realidade se evade da nossa cabeça para dar lugar a um papão que não queremos “deixar entrar”. O filme, esse, entra em nós como poucos.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O cine-transe de Jean-Rouch

Tese de Jose Geraldo Freire Coelho (Univ. Brasília,  2009) :
CINE-TRANSE : EXPERIÊNCIA E NARRAÇÃO NO FILME JAGUAR DE JEAN ROUCH 
http://repositorio.unb.br/handle/10482/4477

ON THE VICISSITUDES OF THE SELF : THE POSSESSED, THE DANCER, THE MAGICIAN, THE SORCERER, THE FILM-MAKER AND THE ETHNOGRAPHER
 (Jean Rouch)
https://pt.scribd.com/doc/237321629/On-the-vicissitudes-of-the-self-the-possessed-dancer-the-magician-the-sorcerer-the-filmaker-and-the-ethnographer#download

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

domingo, 3 de agosto de 2014

Corpos.




The Other Side of the Mirror (Jess Franco, 1973) 



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A cor vermelha.






 Ensaio visual de Stéphane du Mesnildot para o Canal Arte sobre Jess Franco



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